
“O nascimento de Jesus é usado de várias formas por religiosos, poetas e marketeiros. Todos visando lucros. Sejam financeiros ou não.
Nossa cultura é recheada de cores, bolinhas e firulas e presentes quando o tema é natal. Talvez, você me pergunte: por que razão tratar desse “tema” em Fevereiro mês do carnaval? Justamente por não entender o nascimento de Jesus como um tema apenas, mas como um acontecimento, trágico aos olhos de um pai, marido e cidadão; escandaloso aos “cristãos” e remidor aos escravos da legalidade.
José não se lançou a uma viagem de dias a pé e a cavalo, sofrendo o desconforto e os perigos do tempo e dos homens - aos quais estavam expostos – a passeio. Um edito romano determinou que todos os judeus retornassem cada um as suas cidades e cumprissem o alistamento – que servia para o censo.
Belém era uma pequena cidade que já não comportava tantos viajantes. Não é difícil imaginar a confusão formada em todo o seu território. Não existia naquela época o aparato que deve ser montado para promover uma movimentação desse porte. Sem hospedagens suficientes, sem médicos e transportes públicos.
A experiência de José foi extremamente difícil. Sem lugar onde hospedar sua mulher grávida, sem um serviço de saúde onde pudesse levá-la, pois as dores já a incomodavam na viagem, o tempo e os sintomas indicavam que o parto era iminente.
Lembre-se, se já passou por essa situação, do dia em que um amigo ou parente seu precisou urgentemente de um socorro e na porta do hospital a notícia que te chega é a de que não há vagas; ou mesmo, assista aos jornais e observe a dor de parentes e pacientes enquanto aguardam o atendimento em corredores, nas portarias dos hospitais ou, para os privilegiados pelo momento, circulam pela cidade em uma ambulância na busca por especialistas; no caso de Jesus uma parteira.
Não bastasse tamanha dificuldade, a jornada de José e Maria depara-se com a insensibilidade a que todo o homem, num grau mais alto ou mais baixo, possui. O pai, o marido, o homem foi, responsavelmente, em busca de vagas. Mas deparou-se com o egoísmo e com a presunção humana de achar que o que se tem é seu. Deparou-se com a verdade que brota do coração humano onde o centro é o próprio umbigo, que julga todas as justiças a partir de si mesmo. Então, o que consegui, diz ele, é mais justo que seja meu e quem chegou depois que fique com os currais, com os morros e nas periferias.
Isso é ser realista quanto a história do nascimento de Jesus. Pra nós, hoje, é fácil usar o evento profeticamente, religiosamente, teologicamente, poeticamente até comercialmente, mas só quem experimenta a dor da rejeição, do egoísmo, do medo de perder quem se ama devido a falta de amor dos outros sabe que não há espaço nenhum para floreios intelectualizados.
Dessa forma me sinto totalmente a vontade de falar de natal por não entender como um tema sazonal. Não pretendo usar Jesus nesse atoleiro humano que todo ano repete a mesma covardia com a dor do outro. E como disse, visando, de uma forma ou de outra, o lucro.
Onde estão os bem feitores de Dezembro que saem pela noite distribuindo comida, presentes, e roupas para os necessitados? Onde estão os bonzinhos que distribuem cartões de amor e paz? Onde estão os que abusam da dor humana apenas para dizer “fiz o bem”?
O ano inteiro os Josés e Marias andam de porta em porta, de hospital em hospital, de vila em vila em busca de socorro e nenhuma dessas almas-caridosas de Dezembro aparecem.
Eu falo de natal em Fevereiro porque já tem muita gente falando em Dezembro – só em Dezembro.
Os cristãos só são cristãos em Dezembro. Os empresários só são cristãos em Dezembro. A igreja, com sua tara teológica por Tamuz, o medo idólatra da árvore de natal e da falácia de adorar a “cristo”, somente a “cristo”, gastam os recursos que tem com peças teatrais, corais, trancadas nos seus ritos e templos tornando-se menos cristãs que os cristãos de Dezembro.
O natal hipócrita estende-se por várias direções. Muitos caroneiros do pensamento alheio (aqueles que repetem o que não entendem para parecerem entendidos) usam de verdades eternas, mas mesmo assim, caem em sua própria hipocrisia.
As mensagens anunciadas no nascimento de Jesus podem ser vistas de formas diferentes: A contradição da revelação a pastores no deserto, e não aos sacerdotes; o milagre da graça sobre uma jovem e todo um povo; o salvador que nasce no desprezo e vive nele – aqui falo do desprezo dos da hospedaria e todos os que não acreditaram na história de que Maria foi engravidada pelo Espírito Santo; o Deus que se faz homem e habita entre nós experimentando todas as dificuldades e tratamentos que homens despendem a homens; o Deus que é Deus em qualquer lugar, que recebe a todos e cujas portas nunca se fecham recebendo até bichos.
Essas verdades - “o Deus que é Deus em qualquer lugar; que recebe a todos e cujas portas nunca se fecham recebendo até bichos” - tornam-se hipocrisias quando ditas por pessoas que mesmo sabendo que o estábulo é a estalagem sem portas não aceitam encontrá-lo lá dentro. Até entendem que Jesus recebe até bichos, mas não aceitam compartilhar Jesus com os mesmos. É a hipocrisia safada! É a verdade discriminante do indivíduo que usa das verdades do evangelho para se safar de ter que estar no meio dos “marginais”, pobres, negros e leprosos – o que não são. Somos todos imagem e semelhança do Deus que não faz acepção de pessoa, alvos do amor imensurável daquele que é senhor de vivos e mortos em cujo mundo foi reconciliado nEle.
Cristo nos recebe em qualquer lugar. Os homens é que, com certeza, não aceitam estar com ele onde ele pode estar. Seguimos a Jesus apenas por caminhos que nos convém.
Como Jesus vai a todos os lugares, visto que nada o encerra, a maioria espera o dia em que entra na hospedaria e, ali, também, seja encontrado – no entanto que não venha retirá-los Dalí.
Falo do Natal em fevereiro porque proponho a todos os cristãos de dezembro que também o sejam o ano todo. Que apareçam, mesmo sem cartões, mas com a mensagem verdadeira transbordante no coração; Que assim como o menino que com seu nascimento libertou o sorriso preso no coração do pai e da mãe e que, enquanto o contemplavam, o local perdia sentido e a dor não era maior do que bem que DEle fluía, possamos libertar a paz no coração de todos quanto somos enviados.
Libertar do medo, da condenação, da escravidão da alma – seja qual for. Ter fome e sede de justiça; Ser o canal de paz e não de guerras, ainda que interiores; Assumir a igualdade e nunca a soberba – que nasce no coração corrupto do homem.
Assim desejo a todos, um feliz Natal!
Luciano Carvalho
27/02/2009
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